Pressão em Diminutivo
Euclides, 55 anos, sempre foi disciplinado nos treinos da academia do condomínio. Naquela manhã, porém, um passo em falso durante o exercício o fez cair, torcendo o pulso esquerdo. A dor era aguda, e um dos dedos começou a inchar rapidamente. Dois colegas — Mauro, de 40 anos, e Dona Lídia, de 69 — o acompanharam até a clínica mais próxima.
Assim que chegou, mediram sua pressão, que estava um pouco acima do normal. Nada surpreendente para quem, segundo a turma da academia, sofria da síndrome do jaleco branco — aquela reação comum em que a ansiedade diante de profissionais de saúde faz a pressão subir temporariamente.
O que realmente o incomodava, porém, não era o pulso latejante. Era o modo como as técnicas de enfermagem falavam com ele, usando diminutivos como se ele tivesse quatro anos — ou como se todo idoso só pudesse ser tratado assim.
“Mostra o dedinho pra gente.” “Vamos medir a pressãozinha agora.”
Mauro segurava o riso. Dona Lídia revirava os olhos. Euclides respirou fundo. Quando a terceira técnica repetiu “vamos cuidar desse bracinho”, ele sorriu com gentileza e disse:
— Moça, agradeço muito o cuidado. Mas prefiro que fale comigo normalmente. Esses diminutivos me deixam desconfortável.
As técnicas se entreolharam, coraram e pediram desculpas. Ajustaram o tom imediatamente. Euclides, aliviado, sentiu a pressão — finalmente — começar a baixar.

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