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sábado, 5 de julho de 2025

Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Final


Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Final
Mesmo assim, deixo o testemunho. Não para convencer. Apenas para que, quando algum deles também for puxado pela mão invisível do tempo, encontre nesse relato uma pequena trilha. Um reflexo — agora sim — da luz real.

Hoje, não lamento o tempo que passou. Ele não levou nada; apenas trocou papéis. Tirou o que era supérfluo e me deu o essencial. E é com serenidade que, da borda da caverna, contemplo a paisagem que tantos temem — e nela encontro beleza, profundidade e paz.

 Carlos Santarem 
(Fim)
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#velhice #caverna #platão #sombras #prisioneiro #testemunho

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Parte 3

Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Parte 3
O que mais me surpreendeu foi a transformação da minha própria ideia de amor. Antes, era vertigem, paixão urgente, promessas exageradas. Agora, tornou-se presença. O amor amadurecido é feito de paciência, partilha, silêncio confortável. É menos fogo e mais brasa — e aquece por mais tempo.

Penso, às vezes, naqueles que ainda vivem na caverna. Amigos, filhos, netos talvez. Se pudesse, voltaria e lhes contaria o que descobri. Diria que envelhecer não é um castigo, mas uma chance rara de ver com clareza. Que as rugas não são marcas do tempo, mas inscrições da vida vivida. Que o corpo, embora mais frágil, carrega consigo uma alma fortalecida por tantas quedas e reerguimentos.

Mas sei — como sabia o homem da caverna de Platão — que muitos não acreditariam. Ririam, talvez. Ou me chamariam de louco. É difícil aceitar a luz quando se está habituado às sombras. Difícil acreditar que o que parece o fim possa ser um recomeço mais verdadeiro.

Carlos Santarem 

(Continua)
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quinta-feira, 3 de julho de 2025

Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Parte 2

Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Parte 2
A resposta levou tempo para emergir, mas veio com a delicadeza dos instantes que, antes, eu ignorava. Descobri que o envelhecimento não me diminuía. Ao contrário: ele me desobrigava. Já não precisava provar nada, conquistar tudo, vencer sempre. Pude descansar as armas e, pela primeira vez, ver o mundo sem o véu da urgência.

Veio, então, a beleza das coisas pequenas. O gosto do café que nunca precisei tomar com pressa. A conversa que não precisa levar a lugar algum. O pôr do sol que não serve a propósito nenhum além de ser bonito. A escuta atenta ao outro, sem a ansiedade de responder. A leveza de não competir.

Entendi, aos poucos, que os jovens correm em direção ao futuro como quem foge do presente. Eu, agora, aprendi a caminhar. E é nesse caminhar que encontrei verdades que as sombras jamais poderiam oferecer.
Carlos Santarem 
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quarta-feira, 2 de julho de 2025

Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Parte 1

Além da caverna: o que a velhice me ensinou - Parte da 1
Durante anos, vivi com os olhos voltados para dentro da caverna. Via sombras dançarem nas paredes e acreditava que aquilo era tudo: o sucesso, a beleza, o vigor da juventude — formas distorcidas projetadas por uma luz que eu ainda não conhecia.

Mas a vida, essa mestra sutil, me levou sem aviso por um caminho onde os passos tornaram-se mais lentos, o corpo mais silencioso e os pensamentos mais profundos. Foi então que cruzei um portal invisível. Nada me anunciou: “Bem-vindo à velhice.” E, no entanto, lá estava eu — do outro lado, diante da luz.

No início, fui como o prisioneiro libertado da caverna de Platão: os olhos feridos pelo brilho, a mente confusa, a identidade em suspenso. Quem era eu, agora que minha produtividade já não ditava meu valor? Que os olhares dos outros vinham carregados de condescendência ou esquecimento?
(continua)

Carlos Santarem 
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