Perfil em Reconstrução
Julia encarava a tela como quem encara um espelho que insiste em devolver verdades inconvenientes. Precisava escrever um texto curto para o LinkedIn sobre sua demissão — curto, elegante e, sobretudo, diplomático. Nada de mencionar idadismo, embora ele estivesse ali, sentado ao seu lado, tomando café e rindo da situação.
Ela começou com elogios à empresa, famosa por sua política de diversidade. “Ambiente inspirador”, escreveu, enquanto lembrava das reuniões em que era chamada de “experiente demais” para projetos “dinâmicos”. Apagou. Reescreveu. Ajustou o tom. O LinkedIn, afinal, aprecia positividade.
Depois de três versões e meia crise existencial, concluiu um parágrafo impecavelmente neutro, daqueles que poderiam ter sido escritos por qualquer pessoa — inclusive por quem a demitiu.
Respirou fundo, clicou em “Salvar” e, num gesto quase simbólico, ativou o “Open to work”. Sorriu com ironia. O mundo corporativo adorava discursos sobre inclusão, desde que não precisasse praticá-los.
Fechou o laptop certa de uma coisa: hipocrisia também tem excelente empregabilidade.

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