*O Olhar que Pede Resgate*
Berenice chegou à casa de repouso ainda com o peso do pesadelo latejando na memória. O prédio era bonito, moderno, com jardins bem cuidados e funcionários uniformizados circulando pelos corredores. Mas algo nela — talvez o resquício do sonho, talvez um instinto mais profundo — *a fez observar tudo com mais atenção*.
Ao entrar no quarto da mãe, encontrou-a sentada na poltrona, arrumada, mas com um olhar que parecia pedir ajuda. Não era medo explícito, nem dor evidente. Era um silêncio tenso, como se ela estivesse tentando dizer algo sem palavras. Berenice se aproximou, segurou-lhe a mão, e a mãe apertou de volta com *força incomum*.
Durante a visita, Berenice percebeu pequenos detalhes que antes ignorava. A água da garrafa estava morna. A bandeja do almoço, deixada sobre a mesa, tinha comida fria e mal apresentada. *A campainha de chamada estava fora do alcance da mãe*. Quando perguntou a uma funcionária sobre isso, recebeu uma resposta apressada, quase impaciente.
No corredor, enquanto esperava o elevador, uma senhora de cabelos brancos puxou conversa. Disse, em voz baixa, que às vezes ficava horas esperando para ir ao banheiro. Outra comentou que alguns funcionários falavam alto com os residentes, como se fossem incapazes de entender. Um senhor reclamou que seus óculos haviam sumido três vezes em um mês. Havia também quem mencionasse “brincadeiras” inadequadas de um cuidador, sempre ditas como se fossem apenas grosserias, mas que deixavam um rastro de desconforto.
Nada era explícito. Nada era prova. Mas tudo era indício.
Berenice sentiu o estômago revirar. *O pesadelo parecia ter atravessado o sono e se instalado na realidade*. A clínica era cara, renomada, recomendada. E, ainda assim, algo estava errado. Muito errado.
O dilema se impôs como um peso sobre seus ombros. Ela não podia simplesmente tirar a mãe dali — não tinha estrutura em casa, não tinha tempo, não tinha certeza. E se estivesse exagerando? E se fosse apenas paranoia alimentada pelo sonho? Mas e se não fosse?
As possibilidades se embaralhavam: contratar uma cuidadora particular para acompanhar a mãe dentro da clínica; instalar câmeras autorizadas no quarto; conversar com a direção; buscar outra instituição; reorganizar a própria vida para acolher a mãe em casa; ou até mesmo investigar discretamente, conversando com mais residentes e familiares.
Ao se despedir, a mãe segurou sua mão de novo. Dessa vez, o olhar não era apenas pedido. *Era aviso*.
E Berenice entendeu que ignorar aquilo seria trair a si mesma.
Carlos Santarem
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