Miguel, aos 92 anos, desperta devagar. Cada articulação protesta, mas ele insiste em mover-se, porque sabe que ficar parado é entregar-se ao vazio. No pequeno apartamento alugado, o silêncio pesa mais que o corpo.
Os filhos vivem longe, em outros países, e ele nunca pediu ajuda a eles — não por orgulho, mas por entender que cada um trilha seu próprio caminho. Para mitigar a solidão, Miguel criou pequenos rituais. Todas as manhãs, prepara seu café com calma, como quem celebra um instante precioso. Agora com mais cuidado, depois de ter esquecido o fogo acesso no fogão na semana passada. Depois, senta-se perto da janela para observar o movimento da rua. Ali, encontra uma espécie de companhia: o cachorro do vizinho que passa correndo, a senhora que sempre carrega flores, o entregador que arrisca sua vida como motoboy.
Ele também decidiu cultivar uma horta em vasos — manjericão, salsinha, hortelã. Cuidar das plantas lhe dá propósito. À tarde, Miguel lê. Alterna entre romances e livros de filosofia, buscando compreender melhor a finitude que se aproxima. Não teme o fim; teme apenas não viver com sabedoria até lá.Com os parcos recursos da aposentadoria, organiza tudo com rigor. Planeja compras, evita desperdícios, adapta tarefas domésticas ao ritmo lento de seu corpo. Quando a dor aperta, respira fundo e lembra que cada dia ainda é seu.
À noite, escreve pequenas memórias em um caderno. Não para deixar legado, mas para conversar consigo mesmo. Vez por outra, participa de eventos online sobre filosofia com irmãos de um antiga confraria que ele mesmo criou há décadas, mas hoje a moderação está com outro amigo seu mais novo.
Miguel sabe que a vida é breve, mas também sabe que, mesmo sozinho, pode escolher caminhos que lhe tragam serenidade. A saudade de sua Elvira sempre está presente. E assim segue: silencioso, firme, sábio à sua maneira — encontrando luz onde muitos só veriam sombra.
À noite, uma rara ligação no celular interrompe o silêncio da sala.
-E aí pai, tudo bem?
Com calma e serenidade, Miguel responde:
- Por aqui tudo bem, e com você?
Carlos Santarem
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