*Entre o elogio e a ferida*
Há situações que nos atravessam de modo silencioso, quase imperceptível, mas que deixam um rastro profundo de reflexão. Na academia ao ar livre onde treino — um espaço vibrante, cheio de gente muito mais jovem do que eu, com meus 72 anos — vivi uma dessas cenas. No meio da série de exercícios, o professor, querendo incentivar, lançou: *“Vai lá, macho velho!”*. A frase veio embalada em entusiasmo, mas carregava um rótulo que não passou despercebido. Entre o elogio e a ferida, havia ali um preconceito declarado, ainda que naturalizado.
E eu? Eu fui. Fui sem responder, mesmo estudando o idadismo há anos, mesmo com um livro prestes a ser lançado sobre o tema. Fui, como tantos vão: calado. Depois, fiquei pensando na dificuldade que temos de reagir a esses comentários que misturam afeto e estigma. *Será que precisamos estar sempre armados de respostas, prontos para educar o outro sobre como nos nomear?*
A pergunta que emerge é: _como podemos nos posicionar sem transformar cada interação em confronto, mas também sem reforçar o silêncio que sustenta o preconceito._
O que eu deveria ter feito? Talvez apenas nomear o incômodo com serenidade — não para corrigir alguém, mas para afirmar a dignidade que a idade não diminui.
O que eu deveria ter dito? “Velho é o seu preconceito, Mestre!"
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