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segunda-feira, 6 de abril de 2026

O Templo e o Recomeço

*O Templo e o Recomeço*
Jair caminhava devagar pela rua estreita, como quem arrasta não apenas o corpo, mas também o peso invisível de meses de incerteza. Aos 45 anos, desempregado há seis meses, sentia que cada dia era uma batalha silenciosa contra o desânimo. Sua esposa, Clara, 43 anos, também desempregada há oito meses, dividia com ele o mesmo cansaço — um cansaço que não vinha apenas do corpo, mas da alma.

Os dois filhos, antes cheios de atividades, agora viviam uma rotina mais contida. A filha mais velha deixara as aulas de natação; o mais novo, o judô. A TV por assinatura resistia como último respiro de normalidade, uma janela pequena, mas ainda aberta, para algum tipo de alegria.

Jair tentava se manter firme, mas as entrevistas de emprego eram um espelho cruel. Via nos olhos dos recrutadores a mesma mensagem não dita: “Você está velho para isso.”  
E, embora soubesse que não era verdade, a repetição constante começava a corroer sua confiança.

Pensou em mentoria. Pensou em consultoria. Pensou em dar aulas particulares.  
Mas nada disso despertava vontade. Era como se a chama que antes o movia tivesse se recolhido para um canto escuro dentro dele.

Lembrou-se, então, de algo que deixara para trás na juventude: sua faculdade permitia concursos para as Forças Armadas. Poderia tentar concursos públicos em outras áreas também. Mas, recém-formado, sonhara com o mundo corporativo — e agora, olhando para trás, via não um mundo cruel, mas um palco de ilusões onde sonhadores disputavam espaço enquanto os perdedores eram simplesmente descartados.

Essa nova visão não mudava o mundo, mas mudava o que dentro dele reinava. E o que reinava ali era perigoso: um desespero silencioso, quase confortável, que o puxava para baixo como areia movediça.

Foi nesse momento que sentiu a mão de Clara em seu braço.  
Não era um gesto brusco, mas firme. Um convite. Ou talvez um resgate.

— Vem comigo — disse ela.

Sem discutir, Jair a seguiu até um pequeno templo no fim da rua. Havia ali algo acolhedor: luz suave, vozes baixas, pessoas que pareciam carregar suas próprias dores com dignidade.

Sentaram-se juntos. Jair ouviu histórias de superação, palavras de esperança, reflexões sobre ciclos, quedas e renascimentos. Não eram soluções prontas, mas sementes.

Quando o encontro terminou, Jair saiu do templo sentindo algo que não experimentava há meses: leveza.  
Não era alegria, nem euforia. Era apenas… espaço.  
Um espaço interno onde, talvez, algo novo pudesse nascer.

Clara apertou sua mão.  
— A gente vai sair dessa — disse ela.

E, pela primeira vez em muito tempo, Jair acreditou.

Carlos Santarem 
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