*O Peso Leve do Recomeço*
Artur chegou cedo, antes mesmo de o sol decidir se acordaria tímido ou radiante. A porta automática da casa de repouso se abriu com um sopro frio, quase cerimonioso, como se anunciasse não apenas um novo lugar, mas uma nova etapa de si mesmo. Aos 87 anos, carregava mais memórias do que malas, e mais perguntas do que respostas. Seus quatro filhos, cada qual orbitando em mundos próprios, haviam concluído que ali seria o melhor destino. Ele não discordou. Não por concordar, mas por já não se sentir parte de lugar algum.
Enquanto caminhava pelo corredor claro, Artur pensou na Caverna de Platão. Sentia-se como alguém que, depois de décadas olhando sombras familiares, era subitamente convidado a enxergar outras formas de luz. A mudança não era uma escolha, mas a interpretação dela, sim. E isso lhe devolvia certa dignidade.
No quarto recém-arrumado, observou a cama estreita, o armário pequeno, a janela que dava para um jardim modesto. Ali, até o hábito de dormir só de cuecas teria de ser revisto. Sorriu de canto — pequenas renúncias, somadas, formam grandes deslocamentos. Mas ele, espartano de espírito, sabia que a vida exige adaptações constantes, e que resistir ao inevitável só prolonga o sofrimento.
A teoria da Janela de Overton lhe veio à mente enquanto dobrava suas roupas. Ideias antes impensáveis tornam-se aceitáveis quando a necessidade empurra. Viver em uma instituição de longa permanência, algo que antes lhe pareceria distante, agora se tornava realidade plausível, até lógica. Não por conforto, mas por falta de alternativas. E, ainda assim, havia ali uma chance de reconstrução.
No almoço, sentou-se ao lado de uma senhora de olhar vivo e mãos trêmulas. Conversaram pouco, mas o suficiente para que Artur percebesse que todos ali carregavam histórias interrompidas, não encerradas. Histórias que buscavam novos capítulos, mesmo que escritos em letra mais lenta.
Ao final do dia, sentado no jardim, Artur respirou fundo. O estoicismo lhe ensinara que não se controla o vento, apenas as velas. E, naquele instante, decidiu ajustar as suas. Não seria um retorno ao seio familiar, mas poderia ser um retorno a si mesmo.
A noite caiu suave, e Artur, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez o recomeço não fosse um peso, mas uma forma leve de continuar.
Carlos Santarem
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