Google Analytics

VLibras

Favicon

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O Peso do Primeiro Passo

*O Peso do Primeiro Passo*

Lourival atravessou o portão da indústria de cosméticos com a sensação de quem pisa em um território que já conhece, mas que, de repente, parece estrangeiro. Trinta anos de chão de fábrica, ajustes de máquinas, turnos noturnos e metas cumpridas — e, ainda assim, ali estava ele, sentindo-se um novato. O crachá novo brilhava no peito: Gerente de Produção. Um título que, para ele, significava responsabilidade; para alguns dos jovens subordinados, motivo de piada.

*“Lá vem o gerente da cota do idoso”*, ouviu sussurrado no corredor. Não era a primeira vez. Não seria a última. Lourival respirou fundo. Sabia que o preconceito, quando não é declarado, pesa mais. É como poeira fina: acumula sem que se perceba, até sufocar.

No primeiro dia, reuniu a equipe. Olhares dispersos, braços cruzados, celulares escondidos sob a mesa. Ele falou pouco. Preferiu observar. A juventude ali era vibrante, cheia de ideias, mas também carregada de certezas frágeis — como se a idade fosse um defeito e não um acúmulo.

Nos dias seguintes, Lourival não tentou impor autoridade. Preferiu caminhar pela linha de produção, conversar com operadores, ouvir reclamações antigas que ninguém mais lembrava de registrar. Ajustou uma máquina que vibrava demais, reorganizou o fluxo de embalagens, reduziu o desperdício de matéria-prima. Nada espetacular. Apenas trabalho bem-feito — o tipo de coisa que não aparece em relatórios, mas muda o ritmo de uma fábrica.

Aos poucos, os jovens começaram a notar. Primeiro, em silêncio. Depois, com perguntas tímidas. “*Como o senhor sabia que o bico estava desalinhado só pelo som?*” Ele sorriu. “A máquina fala. A gente é que precisa aprender a ouvir.”

Mas o verdadeiro teste veio no quinto dia. Uma falha no lote de cremes ameaçava atrasar toda a produção. A equipe entrou em pânico. Lourival, não. Ele pediu calma, dividiu tarefas, reorganizou turnos, ensinou um método antigo — porém eficiente — de inspeção manual. Em poucas horas, o caos virou controle.

Quando tudo terminou, um dos rapazes, o mais crítico, aproximou-se. “Desculpa aí… a gente achou que o senhor tava aqui só por… bom, o senhor sabe.” Lourival assentiu. “Eu sei. Mas competência não tem idade. Só história.”

Naquela noite, ao deixar a fábrica, ele percebeu que o respeito não se exige — se conquista. E que, às vezes, o maior desafio não é provar algo aos outros, mas lembrar a si mesmo do próprio valor.

*O preconceito, pensou ele, é sempre uma forma de cegueira. E sua missão ali talvez fosse essa: ajudar a equipe a enxergar além das aparências, inclusive as dele.*

Afinal, liderança não é sobre ser visto. É sobre fazer ver.

Carlos Santarem 
*** *** ***
*O tema é do seu interesse? Gostou da matéria? Deixe sua curtida e compartilhe!*

Navegue pelo site e veja mais sobre o tema.

#apesardasuaidade #newsletter #idadismo




Nenhum comentário:

Postar um comentário