*Entre o Sonho e o Alerta*
Berenice estava sentada na poltrona do quarto abafado do asilo, tentando manter a dignidade que a idade insistia em lhe roubar. A cada troca de fraldas, sentia um desconforto crescente: a cuidadora prolongava *toques que não tinham relação com higiene*, aproximava o rosto demais, fazia comentários insinuantes sobre “como era bonita para a idade”. Berenice, constrangida, encolhia o corpo, mas a rotina se repetia como um ritual silencioso que ela não sabia como interromper.
Nos últimos dias, o banho — que ela ainda conseguia tomar de pé — havia sido transferido para um cuidador do sexo masculino. *Ele fazia piadas sobre seu corpo, como se ela fosse incapaz de compreender ou reagir*. Seus movimentos eram bruscos, às vezes dolorosos, e ele parecia se divertir com o incômodo dela. Quando Berenice reclamava, ele respondia com desdém, dizendo que “idoso sempre exagera”.
Os remédios, antes ajustados com cuidado, agora pareciam escolhidos para deixá-la sonolenta, desconectada, quase apagada. Ela acordava com a sensação de ressaca, como se tivesse perdido horas de si mesma. A comida, insossa e fria, só ganhava sabor quando sua filha aparecia — o que aconteceria apenas no mês seguinte.
Outros sinais de maus-tratos se acumulavam: roupas desapareciam, objetos pessoais eram trocados de lugar, e uma enfermeira frequentemente a repreendia em voz alta por motivos banais, como se Berenice fosse uma criança desobediente. À noite, portas batiam, risadas ecoavam no corredor, e ela tinha a impressão de que alguns funcionários zombavam dos residentes quando achavam que ninguém estava ouvindo.
O peso de tudo isso a esmagava. Até que, numa manhã, algo mudou.
Berenice abriu os olhos e percebeu que não estava no asilo. O quarto era o seu — o de verdade. As paredes claras, o cheiro familiar, a luz entrando pela janela. Ela levou a mão ao rosto: não havia rugas tão profundas. Não havia dor. Não havia 92 anos.
Ela tinha 60.
Sentou-se na cama, ofegante. O pesadelo ainda pulsava dentro dela, tão vívido que parecia memória. Levantou-se de um salto, como se precisasse confirmar que estava desperta.
Naquele mesmo dia, ainda abalada, decidiu visitar sua mãe na casa de repouso de classe média alta no Rio de Janeiro. Levava consigo uma dúvida inquietante: até que ponto o sonho era apenas sonho — e até que ponto era um aviso.
Carlos Santarem
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