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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Ecos da Idade

 

Ecos da Idade

Elisandra tinha cinquenta e cinco anos quando atravessou a porta de vidro da empresa de tecnologia que acabara de contratá‑la. O reflexo no vidro mostrava uma mulher experiente, segura, mas também consciente de que carregava nas costas o peso de um mundo que ainda insistia em medir valor pela régua da juventude. Ela fora escolhida para gerenciar uma equipe cuja média de idade girava em torno dos trinta anos — jovens brilhantes, velozes, inquietos. E entre eles, Maysa.

Maysa era talentosa, dedicada e, sobretudo, ambiciosa. Esperava, quase como um direito tácito, assumir o cargo que agora pertencia a Elisandra. A frustração transformou‑se em algo mais denso: um idadismo reverso que se manifestava em olhares enviesados, comentários velados e pequenas escaramuças cuidadosamente arquitetadas.

Primeiro vieram as reuniões em que Maysa “esquecia” de compartilhar documentos essenciais com a nova gerente. Depois, as sugestões passivo‑agressivas, sempre iniciadas com um “na nossa geração fazemos assim”. Em seguida, a tentativa de minar a autoridade de Elisandra ao propor soluções alternativas diretamente ao diretor, ignorando a liderança recém‑chegada. Para ela, a contratação de Elisandra não era mérito, mas política. “Cota etária”, murmurava pelos corredores, como se a experiência fosse um privilégio indevido.

Elisandra percebeu tudo. Não com ressentimento, mas com a serenidade de quem já vira muitos ciclos humanos se repetirem. Em vez de confrontar Maysa com dureza, escolheu a via da inteligência emocional. Chamou a jovem para conversar, não para repreendê‑la, mas para ouvi‑la. Perguntou sobre seus projetos, suas ambições, seus receios. Maysa, desconcertada, viu suas defesas ruírem diante de uma postura que não esperava.

Aos poucos, Elisandra começou a delegar tarefas estratégicas à jovem técnica, não como concessão, mas como reconhecimento. E, ao mesmo tempo, demonstrava — com ações, não discursos — que experiência não é sinônimo de rigidez, mas de amplitude. Que saber envelhecer é saber aprender sempre.

Com o tempo, a equipe percebeu que a liderança de Elisandra não competia com a juventude deles; complementava. E Maysa, antes resistente, tornou‑se sua maior aliada.

O preconceito reverso não desapareceu como mágica, mas perdeu força diante da convivência. E Elisandra, com sua postura firme e generosa, mostrou que a idade não é um muro, mas uma ponte — desde que alguém tenha coragem de atravessá‑la.

Carlos Santarem 

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#preconceitoreverso

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